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Maio/junho 2009
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Blues com um toque brasileiro
Ar
Puro - Jefferson Gonçalves
Cotação: ****
O blues foi o estilo musical do Ocidente
mais importante do século XX. A partir dele vieram o jazz,
o soul, o R&B, o rock, entre outros. Entretanto, muitos pensam
que a sua estrutura é simples e de fácil manuseio.
Esse é um erro comum que alguns músicos cometem.
O blues não é apenas uma caixa a ser recheada com
uma letra e um solo de gaita ou guitarra. Ele é complexo,
profundo e muitas vezes enigmático. Já houve artistas
e bandas que pensavam que podiam lidar com ele, mas foram enganados
e o trabalho final foi um grande equívoco. O blues, acima
de tudo, é o lamento dos escravos e, assim, ele não
perdoa quem faz mau uso dele.
Felizmente, o gaitista Jefferson Gonçalves
respeitou as tradições do estilo e mostrou que o
verdadeiro blues não é apenas uma canção
de três acordes. Jefferson, Kleber Dias (vocal, violão,
banjo, guitarra) e a banda produziram um disco que rastreou os
caminhos que o blues percorreu ao longo dos seus mais de cem anos
de existência.
Além da digressão pela música
negra norte-americana, Jefferson dá continuidade à
mescla de ritmos nordestinos, tais como baião, forró
e maracatu, característica dos bons trabalhos anteriores.
Ar Puro (Blues Time Records), entretanto, é um trabalho
mais maduro. Tanto o gaitista como o resto da banda estão
entrosados e com uma técnica apurada.
O CD inicia com Baião pra Jú,
uma boa abertura que de cara apresenta o cartão de visita
do músico. Jefferson mostra que a ligação
entre o blues americano e o Nordeste é mais próxima
do que imaginávamos. Just your fool (Little Walter)
tem uma percussão bem marcada e dita o rumo da música.
500 miles (Peter Madcat Ruth) tem uma atmosfera psicodélica.
A melhor parte do álbum fica reservada
para uma sequência matadora. Ar Puro, canção
que dá nome ao novo trabalho, tem uma melodia leve e, ao
mesmo tempo, forte. Apesar de ter apenas um pouco mais de dois
minutos, a canção satisfaz o ouvinte. Don't let
your deal go down, canção de domínio
público, traz influências do country e um ótimo
vocal de Kleber. Em Highway 61 (Bob Dylan), Jefferson mostra
a sua admiração pelo compositor e cantor norte-americano
em um blues-rock poderoso. Fechando a sequência, Nosso
Groove, como o nome já deixa claro, é puro suingue:
uma percussão "arretada" e uma gaita equilibrada,
sem pecar pelo excesso de virtuosismo. A parte da guitarra remete
ao começo da carreira de Santana.
Essa é pro Espedito tem um pé
no samba. Help the poor (Charles Singleton), apesar de
algumas boas passagens, é monótona e demasiada lenta
e Teto preto soa um tanto repetitva, mas não compromete
de forma alguma o disco. Se liga tem uma pegada oitentista
(isso é um elogio), enquanto que Six feet under,
constratando, é um blues de raiz com vocal de Richard Werner.
O CD encerra com muita qualidade com Estação
Werneck.
Ar Puro representa o crescimento musical
de Jefferson Gonçalves. Em seu terceiro trabalho solo,
o gaitista gravou uma excelente obra que o coloca na lista dos
músicos mais originais do Brasil.
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