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Maio/junho 2009
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Grand Funk Railroad
Um trem chamado Grand Funk
Outro
dia, com alguns amigos, em uma mesa de bar, conversávamos
sobre qual teria sido a banda mais rock dentre todas do estilo.
Alguns citaram Led Zeppelin, outros lembraram do Iron Maiden,
e houve até quem opinasse em nomes mais "recentes",
como Rage Against the Machine. Chegou a minha vez de opiniar.
Pensei durante alguns segundos. Acabei escolhendo o Led Zeppelin,
considerado como o maior nome do hard-rock, quissá do rock
em geral. Após algumas garrafas de cerveja fui para casa.
Adentrei no meu quarto e, cambaleando por causa do álcool,
liguei o cd-player. Estava com um álbum do Grand Funk Railroad.
Puta que pariu, GRAND FUNK RAILROAD! Era a porra da resposta que
deveria ter dado! Peguei imediatamente o Caught in the Act.
Logo na primeira música, uma porrada: Footstompin' Music.
Este disco ao vivo, certamente integrante da lista dos melhores
"ao vivo" da história do rock, mostra uma legítima
banda de rock no seu auge, na primeira metade da carreira. O show
possui um set list com clássicos como Rock and Roll
Soul, We're an American Band e Inside Looking Out.
A banda era formada por jovens pobres, que
sofriam em uma cidade com pouca esperança, Flint (sim,
a mesma cidade de Michael Moore), em finais dos anos 60. A situação
política e social era conturbada. O noticiário ainda
tratava sobre o assassinato de Robert Kennedy e a eleição
do republicano Nixon, a manutenção da Guerra do
Vietnã e a resposta pacífica e "vendida"
vinda de um rancho chamado Woodstock. O filme de Moore, Roger
and Me, mostraria, quase duas décadas depois, como essa
cidade beirava o caos social. Sede de fábricas da indústria
automobilística, a população era, basicamente,
formada por operários e tinha uma economia voltada para
esse setor. De acordo com o senso comum da época, dificilmente
nasceria alguma expressão artítisca naquele local.
Por ironia do destino surgia o Grand Funk Railroad, uma puta banda
de rock!
O poderoso power trio, formado pelo guitarrista
e vocalista Mark Farner, pelo baixista Mel Schacher e pelo baterista,
e depois vocalista, Don Brewer, possuía toda a força
de um trem, literalmente um expresso do rock. Constantemente em
comparação com outras bandas em formato de trio,
como Cream e Jimi Hendrix Experience, o Grand Funk uniu o espírito
rock'n'roll, extrema competência no som, atenção
aos seus fãs e uma firme ideologia. Representando um novo
rock americano, um hard rock crú com influências
no blues e no baixo de funk e soul, os três jovens faziam
um som pesado, mostrando o declínio das ideologias hippies
ou seja, que a realidade era bastante dura.
Os três primeiros discos de estúdio,
respectivamente, On Time, Grand Funk e Closer
to Home, ajudaram o Grand Funk a entrar na lista das bandas
mais pesadas daquela época. Assim como o Black Sabbath
e o Led Zeppelin, que lançaram de cara uma trinca de discos
matadores (respectivamente, Black Sabbath, Paranoid,
Master of Reality, e Led Zeppelin, Led Zeppelin
II e Led Zeppelin III, o trio de Farner levaria o rock pesado
a um novo patamar, agora com o fiel apoio dos jovens americanos.
Dizem que a primeira faixa de um disco é
a mais importante; se for brochante o ouvinte dificilmente não
terá a mesma alegria para escutar o restante. Isso não
acontece com o primeirão do Grand Funk, On Time,
de 1969. Are you Ready? introduzia o ouvinte a um mundo
do rock selvagem, sem frescuras, e logo na sequência, mantendo
a linha agressiva, Anybody's Answer. Time Machine
e High On a Horse, duas blueseiras com bastante peso; T.N.U.C.
revela um dos grandes bateristas do rock, onde Brewer sola durante
alucinantes quatro minutos; Into the Sun e Heartbreaker,
dois hard-rock melódicos, com um show a parte de Farner;
e ainda há espaço para um rock que flerta com psicodélico,
Can't be Too Long. Uma estréia arrasadora!
O "Disco Vermelho" (Grand Funk), de 1970, como ficou
conhecido por alguns, praticamente continuou o trabalho anterior.
Aos que pensavam que o peso fosse reservado apenas para o álbum
de estréia, uma grande decepção. A faixa
de abertura, Got this Thing on the Move, é capaz
de levantar os mortos, tamanha a porrada. Please Don't Worry,
High Falootin'Woman e Mr. Limousine Driver representam
a sonoridade peculiar da banda: distorção crua,
bateria num rítmo incansável, um baixo com influências
de black music e um vocal poderoso que alcançava as notas
mais altas. A bolacha ainda conta com o clássico Inside
Looking Out, uma canção de quase 10 minutos
que alterna momentos psicodélicos, solos incendiários
de Farner e um verdadeiro duelo entre o vocal e os demais instrumentos.
O último da trinca, Closer to Home,
mantém o selo "Grand Funk de Qualidade" num disco
completo. Lançado no mesmo ano que o anterior, tem canções,
como Sin' a Good Man's Brother e Aimess Lady, que
mostram uma banda de rock experiente. Há composições
sobre amor: a depressiva Mean Mistreater (como a escutei
quando tomei o pé na bunda), o rock de Hooked on Love
e a clássica I'm Your Captain. Considerado por muitos
fãs como o melhor da carreira, o disco ainda guarda fortes
emoções em faixas como a semi-instrumental, Get
it Together. Se o governo Norte-americano tem sua sede em
Washington, o rock teria a sua em Flint.
Grand Funk Railroad x Led Zeppelin, o duelo pelo
clamor dos fãns
Os fãs enlouquecem, e cada vez mais consomem
o rock do Grand Funk. Capazes de arrastar multidões e lotar
estádios eram apontados por muitos, ao lado do Cactus,
como o grande rival americano do Led Zeppelin. Os EUA tinham certeza
da grandiosidade daquela banda: a aceitação e a
consequente adimiração foram instantâneas.
As vendas eram exorbitantes e, como toda banda que consquistara
o mercado fonográfico, poderiam embolsar uma tentadora
quantia. Porém, não esquecendo as origens, a banda
exigia um preço mais compatível com a realidade
financeira de um jovem recém-formado na high school, sem
perspectivas de um emprego que o remunerasse decentemente. Os
lucros eram menores e anos mais tarde, viriam a descobrir que
eram inclusive menores do que de seu empresário, Terry
Knight. Esse aí enriqueceu absurdamente...
Coincidentemente, um dos maiores confrontos em
palco aconteceu entre essas duas bandas. Durante a turnê
americana do Led, o Grand Funk ficou encarregado de abrir os shows
da mega banda. A parceria duraria pouco já que durante
um show em Detroit, o "quinto" integrante do grupo inglês,
Peter Grant (empresário da banda e ex-atleta de luta livre),
desligou a energia do palco. Isso tudo porque a versão
de Inside Looking Out levava o público ao delírio.
Plant e companhia tiveram medo que a perfomance dos americanos
viesse a ofuscar a apresentação principal. O resultado
foi uma tremenda confusão diante a platéia. O empresário
dos norte-americanos, Terry Knight, ainda gritava em um microfone
que o londrinos estavam com medo do Grand Funk... Pior para o
Zeppelin que amargou um show vazio, já que o público
indignou-se com a atitude.
Críticos. Quem precisa deles?
Apesar de toda essa comoção, a crítica
não perdoava. A cada disco lançado, um áspero
julgamento. Felizmente, a banda, que ao mesmo tempo conseguia
ser a mais amada e odiada, não deixou os fatores externos
abalarem a moral e a criatividade.
Eles ainda lançariam pérolas como
o Survival, E Pluribus Funk ("o disco da moeda"),
Phoenix e We're an American Band, endeusados pelos fãs
e, é claro, arduamente criticado pelos "especialistas".
Em pouco tempo o trio bateria recordes históricos, como
o de ser a única banda americana a receber 10 discos de
platina seguidos (incluindo o ao vivo Live Album).
Porra, falar do Grand Funk emociona, ainda mais em momentos alcoolizados.
Apesar de alguns dizerem que o grupo teria se afundado após
colocar Craig Frost nos teclados, a partir do Phoenix, deixando
o som mais "macio", considero o Grand Funk Railroad
como um dos legítimos dinossauros do rock. Evidente que
como toda banda com tantos anos de estrada, sempre há algum
trabalho fraco, caso de All the Girls in the World Beware!!
e Born to Die, mas a trajetória dessa fantástica
máquina de rock os coloca num patamar único.
Injustiçado eternamente, inclusive em terras
tupiniquins, o trio deu uma aula de como o rock deve ser tocado.
Em tempos de masturbações distorcidas, discos produzidos
de forma artificial e sem qualquer conteúdo e essa onda
EMO patética, o Grand Funk Railroad deveria ser escutado,
e muito! Eles eram, são e sempre serão uma verdadeira
banda americana, uma puta banda de rock'n'roll!
* Esta edição da Revista Rio
Rock & Blues é dedicada ao nosso eterno amigo e colaborador
Marquinho. Temos certeza que a essa hora ele está numa
jam session com os anjos.
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